As Glórias de Srila Narottama Dasa Thakura

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Dhira-samira, Vamsivata e Templo de Sri Govindaji
14 de outubro de 2014

As Glórias de Srila Narottama Dasa Thakura

Dandavat Pranamas! Em 2017, 10 de outubro, celebramos o auspicioso dia do desaparecimento de Srila Narottama Dasa Thakura! Em honra a essa data especial, oferecemos uma encantadora aula de Srila Bhaktivedanta Narayana Gosvami Maharaja dada em 02 de novembro de 1996, em Mathura na Índia, sobre a vida deste grande Santo Vaisnava.

Śrīla Narottama dāsa Ṭhākura

Śrīla Narottama dāsa Ṭhākura

 

Srila Narottama Dasa Thakura nasceu na Bengala Ocidental como o filho de um grande rei e era um belo príncipe. O rei era um de dois irmãos, mas havia apenas um filho na família. Ainda assim, desde a sua infância Narottama dasa era muito puro e devotado, permanecendo como um brahmacari por toda a sua vida, nunca tendo se casado. Quando chegou a idade de dezesseis anos, ele saiu de casa e foi para Vrindavana com Sri Syamananda Prabhu e Srinivasa Acarya. Ele havia desejado receber o darsana de Sri Caitanya Mahaprabhu, que estava em Jagannatha Puri naquele momento, mas quando estava a caminho de Puri, ouviu dizer que Mahaprabhu e Seus associados como Sri Svarupa Damodara, Sri Raya Ramananda e Sri Gadadhara Pandita haviam todos desaparecido deste mundo. Esta notícia devastou seu coração! Assim, Ele mudou o destino de sua viagem e foi para Vrindavana. No caminho, porém, ouviu que Srila Rupa Gosvami e Srila Sanatana Gosvami também haviam partido.

Nesta época, Srila Raghunatha dasa Gosvami, ainda estava presente em Vrindavana, residindo no  Radha-kunda. Srila Raghunatha dasa Gosvami tinha estado em Jagannatha Puri na ocasião em que Sri Caitanya Mahaprabhu e Seus associados desapareceram. Naquele momento, desistindo de viver, Raghunata decidiu ir para Vrindavana e se jogar da colina Govardhana ou no rio Yamuna. Ele primeiro decidiu morrer se jogando em Yamuna devi, mas viu que havia muito pouca água pois ela sentia muita separação de Krsna. Então ele pensou: “Eu deveria ir para Govardhana saltar do topo da colina e abandonar minha vida”.

Srila Rupa e Sanatana Gosvamis ainda estavam lá naquele tempo, e o consolaram, dizendo: “Se desistindo da  vida alguém pudesse encontrar e servir a  Sri Sri Radha e Krsna, nós seriamos as primeiras pessoas a desistir das nossas vidas, todavia, sabemos que não podemos obter o Senhor Sri Krsna dessa maneira, então você não deveria agir desse jeito. Você deveria praticar bhajana”. Assim, ele foi para Govardhana fazer bhajana, e seu modo de adoração era tão rigoroso que ninguém podia segui-lo. Era muitíssimo difícil. Ele comia praticamente nada e estava sempre chorando, sempre cantando, sempre se lembrando, e às vezes, rolando nas margens do Radha-kunda. Mais tarde, quando soube que Srila Rupa Gosvami tinha deixado este mundo e entrado em  aprakata-lila (os passatempos imanifestos de Radha e Krsna), sentiu uma solidão insuportável e pensou: “Eu não quero viver no Radha-kunda, porque agora ele se parece com a boca aberta de um tigre, e Giriraja Govardhana parece ser uma grande python. Tudo em Vraja parece estar vazio, sem vida. Em função disso, não posso permanecer vivo”. Ele expressou seu sentimento de  separação em suas orações através dessas palavras.

Srila Narottama Dasa, Srivasa Acarya, e Syamananda Prabhu

Srila Narottama Dasa, Srivasa Acarya, e Syamananda Prabhu

Este foi o humor usual de separação após o desaparecimento dessas grandes personalidades. Nesse meio tempo, Srila Narottama, acompanhado por Srila Syamananda Prabhu e Srinivasa Acarya, foram à Vrindavana, buscar o abrigo e orientação de um Vaisnava. Os três se aproximaram dos pés de lótus de Srila Jiva Gosvami, que na época estava residindo no templo Sri Radha-Damodara. Srila Jiva Gosvami ficou muito feliz em vê-los. Ele considerou que o Senhor Krsna e Sri Caitanya Mahaprabhu haviam planejado pessoalmente para que estes três jovens devotos recebessem aulas sobre todos os ensinamentos de Srila Rupa Gosvami, Sri Caitanya Mahaprabhu, Srila Sanatana Gosvami e de outros grandes acaryas. Ele ficou muito feliz por tê-los como alunos e começou a ensinar os  sastras (escrituras sagradas), como Sat-sandarbha, Brhad-bhagavatamrta com as explicações de Srila Sanatana Gosvami, Brhad-vaisnava-tosani, Hari-bhakti-vilasa, Bhakti-rasamrta-sindu , Ujjvala-nilamani e muitos outros. Assim, os três devotos muito rapidamente tornaram-se mestres em  todos esses assuntos.

Durante este período, Srila Jiva Gosvami foi aceito por toda a comunidade Vaisnava como o rei dos Vaisnavas, o mais elevado Vaisnava das três mandalas: Sri Navadvipa Mandala, Sri Vraja Mandala, e Mandala Ksetra (Jagannatha Puri). Ele estabeleceu o Visva Vaisnava Raja Sabha. Visva significa mundo e Vaisnava-raja significa devotos puros. Ele estabeleceu Visva Vaisnava Raja Sabha para o mundo inteiro, de forma a permitir que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pudesse vir à essa instituição espiritual para obter informações através dos devotos puros, e ler e estudar a filosofia Vaisnava. Srila Jiva Gosvami foi o segundo presidente da sociedade, Srila Rupa Gosvami foi o primeiro, e essa sociedade existe ainda hoje sob diferentes nomenclaturas.

Sat-Sandarbha é a escritura de Srila Jiva Gosvami. É um livro excepcional sobre filosofia Vaisnava, cultura e princípios dos procedimentos e da etiqueta Vaisnava. Os pensamentos de Srila Jiva Goswami no Sat-Sandarbha aparecem no Sri Caitanya- caritamrta e em todas as outras literaturas Gaudiya Vaisnavas. Sat-Sandarbha veio primeiro, e depois, o Sri Caitanya-caritamrta. Toda essência desta escritura foi recebida a partir do Sat-Sandarbha.

Srila Jiva Gosvami, siksa guru de Narottama Dasa

Srila Jiva Gosvami, siksa guru de Narottama Dasa

Naquela época, apenas aqueles que receberam a permissão e autoridade de Srila Jiva Gosvami foram considerados Vaisnavas eruditos e qualificados. Com base nisso, alguém pode ser aceito como um Vaisnava por toda a sociedade de Gaudiya Vaisnavas nos três locais: Navadvipa, Jagannatha Puri e Vrindavana. Vaisnavas de todas as partes da India costumavam vir até Srila Jiva Gosvami para estudar os sastras sob sua orientação. Embora Srila Narottama dasa Thakura, Srila Srinivasa Acarya e Sri Syamananda Prabhu não fossem seus discípulos iniciados, Jiva Gosvami os adotou e tornou-se siksa-guru deles, concedendo-lhes todas as conclusões filosóficas. Ele os ensinou sobre o Srimad Bhagavatam, Sat-Sandarbha, todos os livros de Srila Rupa Gosvami com ênfase no Sri Bhakti-rasamrta-Sindhu e Sri Ujjvala-nilamani, os livros de Srila Sanatana Gosvami como Srimad Brhad-Bhagavatamrtam, e todos os outros livros do Gaudiya Vaisnavismo.

Embora estes três devotos tivessem seus próprios diksa-gurus, eles tinham o maior respeito por Srila Jiva Gosvami. Se o siksa-guru for plenamente qualificado, ele deve ser respeitado tanto quanto Krsna, e se o diksa-guru é igualmente qualificado, ele também deve ser tratado assim, como uma manifestação do Senhor Krsna. Se ambos são qualificados, deve- se dar respeito igualmente aos dois e considerá-los como manifestações de Krsna. Siksa-guru não é inferior ao diksa-guru, e em alguns casos ele é superior ao diksa-guru, de acordo com a qualificação. Srila Jiva Gosvami nunca aceitou formalmente nenhum discípulo e nunca ofereceu anustanika-diksa (cerimônia de fogo), mas apenas a filosofia de Krsna, que é mais importante do que a cerimônia de fogo e outros rituais.

Srila Sanatana Gosvami nunca iniciou nenhum discípulo e Srila Rupa Gosvami apenas iniciou Srila Jiva Gosvami, mas todos os Vaisnavas do mund os o consideram serem ainda maiores do que os seus diksa e siksa-gurus. Vocês tratam Srila Sanatana Gosvami e Srila Rupa Gosvami como guru? Deveriam!  Eles são siksa-gurus e estão próximos de Krsna. Todos os dias nós fazemos a oração: “Vande ham sri guru sri jutah padakamala sri rupam sagrajatam”. Aqui a palavra “sagrajatam” significa irmão mais velho. Sanatana Gosvami é o irmão mais velho de Rupa Gosvami. Vocês todos devem fazer esta oração diariamente, todas as manhãs. Esta é uma bela oração feita por Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami, e todas as outras orações estão incluídas nela. Todos os gurus e Vaisnavas estão incluídos, os seis Gosvamis estão presentes, todos os associados de Mahaprabhu liderados pelo Senhor Nityananda e Sri Advaita Acarya também estão, todas as  sakhis, as companheiras de  Radhika como Srimati Lalita devi e Visakha devi, e todas as manjaris lideradas por Sri Rupa Manjari estão presentes nessa oração, que é uma bela oferenda e reverência, pois tudo está contido em um só mantra.

Transmitindo tudo o que sabia aos três Vaisnavas, Srila Jiva Gosvami lhes disse que, embora ele os tivesse aceito e considerado mais do que discípulos, eles teriam que receber diksa de outro mestre. Syamananda Prabhu já tinha sido iniciado por Hrdaya Caitanya Gosvami de Kalna, mas Srila Narottama dasa Thakura e Srinivasa Acarya ainda não tinham sido iniciados. Jiva Gosvami ordenou Srinivasa Acarya para ser iniciado por Srila Gopala Bhatta, e instruiu os três para que tratassem todos os Vaisnavas qualificados como gurus.

Seu mestre espiritual, Srila Lokanatha Dasa Thakura

Seu mestre espiritual, Srila Lokanatha Dasa Thakura

Após a conclusão dos ensinamentos dados a Srila Narottama, Jiva Gosvami dirigiu-se a ele e falou: “Vá até Srila Lokanatha dasa Gosvami e tente torná-lo seu diksa-guru”. O Thakura disse: “Eu tenho feito tudo por você e o aceitei como meu guru. Eu não acredito que haja alguém em toda a Vraja que seja tão qualificado como você. Você é akincana, niskincana (desapegado, sem desejos materiais) e um parama-tattva-rasika Vaisnava (aquele que realizou todas as verdades estabelecidas e está saboreando todas as doçuras devocionais). Eu quero ser iniciado por você”. Srila Jiva Gosvami negou o pedido, considerando não ser qualificado. Ele o direcionou a Srila Lokanatha Gosvami, dizendo: “Eu sou o seu Guru, mas você deve ir até ele”. Srila Lokanatha Gosvami era um associado de Sri Caitanya Mahaprabhu e tinha vindo a Vrindavana para praticar bhajana com Srila Bhugarbha Gosvami. Ele havia pedido a Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami, para não escrever nada sobre ele no Sri Caitanya-caritamrta, e Srila Krsnadas Kaviraja seguiu suas instruções. Ele era um akincana niskincana Vaisnava (aquele que não possui nada em sua vida além de Krsna). Ele não tinha dinheiro, casa, nem nada para reivindicar como seu. Ele tinha decidido não ter discípulos para que sua mente não se desviasse em direção a eles. Ele pensava: “Muitos discípulos virão e dirão: vou servir e preparar tudo para você. Eles vão fazer biksa (pedir doações) e dar-me dinheiro,  depois me oferecerão glorificações e assim eu me desviarei de Krsna. Ele tinha decidido que não aceitaria nenhum discípulo, mas se alguém fosse até ele, daria krisna-katha (ensinamentos sobre Krsna).

Narottama dasa Thakura era tão renunciado e desinteressado que, conforme solicitado por Srila Jiva Gosvami, ele se aproximou de Srila Lokanatha Gosvami, prostrou-se em seus pés de lótus e orou: “Por favor, me inicie. Não sou qualificado mas, apesar disso, quero ser iniciado por você”.

Lokanatha dasa Gosvami perguntou: “Quem é você?”

Ele respondeu: “Eu sou um bengali.”

Lokanatha perguntou novamente: “Quem é você?”

Narottama dasa respondeu: “Eu sou o filho de um rei.”

Lokanatha dasa perguntou: “Você tem algum irmão?”

Narottama dasa disse: “Não, eu sou o único filho do meu pai.”

Lokanatha dasa Gosvami respondeu: “Você é um príncipe muito culto e belo. Agora você é um menino, e o único filho do seu pai. Eu nunca o aceitarei como meu discípulo. Procure outra pessoa.”.

Narottama dasa pediu repetidas vezes para que Srila Lokanatha dasa o aceitasse, mas Lokanatha dasa o recusou todas as vezes. Ele afirmava: “Você compreendeu todas as conclusões filosóficas de  Srila Jiva Gosvami e eu não posso iniciá-lo. Não tenho discípulos e não quero ter nenhum”.

Narottama dasa então fez um voto: “Eu só aceitarei iniciação de  Lokanatha dasa Gosvami! Não terei nenhum outro guru”.

Lokanatha dasa Gosvami vivia e praticava bhajana em uma floresta de Vrindavana. Durante a noite, havia pouca chance de ser visto, e Narottama dasa começou a entrar secretamente no lugar onde Lokanatha Gosvami fazia suas necessidades e a limpar o lugar com uma vassoura feita de folha de coqueiro. Ele jogava as fezes para bem longe, e espalhava esterco de vaca, tornando o  lugar muito puro. Ele também limpava o caminho usadao para chegar neste local. Ele costumava se esconder nas proximidades e ouvia Lokanatha dasa Gosvami cantando, como ele cantava e o que estava cantando .

"Eu sou o dukhi Narotama, o infeliz Narotama. Eu sou uma pessoa imprestável e inútil. Mas sou beneficiado pela misericórdia de Srila Jiva Gosvami e quero fazer bhajana para Krsna, potanto, tenha misericórdia de mim."

“Eu sou o dukhi Narotama, o infeliz Narotama. Eu sou uma pessoa imprestável e inútil. Mas sou beneficiado pela misericórdia de Srila Jiva Gosvami e quero fazer bhajana para Krsna, potanto, tenha misericórdia de mim.”

Depois de alguns dias, Srila Lokanatha Gosvami começou a se perguntar: “Quem é o ladrão que está vindo diariamente e limpando o local onde faço minhas necessidades e o caminho para chegar nele? Quem é essa pessoa? Um dia ele decidiu investigar. Ele costumava praticar bhajana durante toda a noite sem dormir, e, certa noite, se escondeu em um kunja para ver quem estava limpando. Na escuridão da noite, aquele mesmo belo príncipe, Srila Narottama, havia chegado lá. Ele estava prestes a limpar o local, quando Lokanatha Gosvami apareceu e segurou suas mãos perguntando: “Quem é você??”

Narottama Thakura ficou com medo e começou a chorar amargamente.

“Quem é você? Diga-me”, pediu Lokanatha dasa.

O príncipe respondeu: “Eu sou o dukhi Narotama, o infeliz Narotama. Eu sou uma pessoa imprestável e inútil. Mas sou beneficiado pela misericórdia de Srila Jiva Gosvami e quero fazer bhajana para Krsna, portanto, tenha misericórdia de mim.”

“E por que você está fazendo isso?” perguntou Srila Lokanatha Gosvami.

“Você não me aceitou como seu discípulo e pensei em alguma forma de agradá-lo. Sendo eu um príncipe, estou fazendo esse serviço inferior para que possa ficar satisfeito comigo, e assim receber sua misericórdia”.

Lokanatha Gosvami disse: “Sim, estou contente e satisfeito com seu serviço. Eu tinha decidido não aceitar nenhum discípulo, mas vejo que você é uma pessoa qualificada, por isso vou aceitá-lo como meu único discípulo.”

Ele levou Srila Narottama dasa para o seu  bhajana kutira e instruiu para que se banhasse nas proximidades do rio Yamuna cedo pela manhã. Narottama dasa foi então iniciado por Srila Lokanatha Gosvami com krsna-mantra, ou seja, no gopala-mantra, e no kama-gayatri mantra ‘klim krsnaya’ e ‘ klim kamadevaya’.

Srila Narottama dasa Thakura servia continuamente seu guru, que providenciou um bhajana kutira separado para ele, próximo de onde ficava, e lhe deu muitas instruções: “Abandone todos os desejos mundanos, não vá a lugar nenhum por motivo qualquer, e não se associe com pessoas comuns. Sempre cante os Santos Nomes e pense nos passatempos do Senhor Krsna. Seja mais humilde do que uma folha de grama e mais tolerante que uma árvore”. Ele o instruiu a sempre ficar no seu bhajana kutira, cantando harinama e meditando nos passatempos de Krsna. Narottama dasa seguia todas essas instruções.

"Abandone todos os desejos mundanos, não vá a qualquer lugar por qualquer motivo, e não se associe com pessoas comuns. Sempre cante os Santos Nomes e pense nos passatempos do Senhor Krsna. Seja mais humilde que uma folha de grama e mais tolerante que uma árvore."

“Abandone todos os desejos mundanos, não vá a qualquer lugar por qualquer motivo, e não se associe com pessoas comuns. Sempre cante os Santos Nomes e pense nos passatempos do Senhor Krsna. Seja mais humilde que uma folha de grama e mais tolerante que uma árvore.”

Em um dia quente de verão, um fazendeiro sedento veio a Srila Lokanatha dasa Gosvami pedindo água. Havia um poço nas proximidades, e Lokanatha Gosvami tinha uma corda e um balde, mas ele estava cantando harinama:

Hare Krisna, Hare Krisna, Krisna Krisna, Hare Hare,
Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Absorto nas lembranças dos passatempos de Krsna e submerso no oceano de rasa (doçuras transcendentais), ele não tinha consciência das coisas externas, e portanto não respondeu ao fazendeiro que foi até o jovem santo e perguntou: “Oh pequeno baba, estou com tanta sede mas não tenho corda e nem balde. Por favor, me dê água”.

Por duas vezes o fazendeiro  fez este pedido ao Thakura, que estava no meio do seu bhajana. O Thakura deixou sua mala (contas) em que cantava harinama e foi buscar água no poço, dando a água ao fazendeiro, que bebeu e seguiu o seu caminho. Enquanto isso Srila Lokanatha Gosvami voltou a consciência externa, e sabia tudo o que havia acontecido. Ele chamou o jovem Babaji, Srila Narottama Thakura, e lhe disse: “Você deve voltar imediatamente para a sua casa. Eu não quero um discípulo como você. Eu não vou permitir que você faça bhajana aqui comigo. Você tem tantos desejos, é um homem muito gentil com todos, então retorne para o seu reino, viva no seu palácio e seja caridoso com o seu povo. Você deve dar a eles toda a água, pão e manteiga, roupas e tudo o mais. Você ainda não pode praticar bhajana.”

“Por quê? “

“Porque você não tem ideia do que significa o santo nome de Sri Krsna. O nome de Krsna é o próprio Krsna. Hare Krsna significa Sri Sri Radha-Krsna. Não há diferença entre Radha-Krsna e seus nomes. Quando um Vaisnava canta os nomes de Radha e Krsna e Hare Krsna, ele compreende que está servindo Krsna diretamente, nos kunjas de Vraja. Você acha que o serviço de Radha e Krsna nos kunjas é menos importante do que matar a sede de uma pessoa comum que não faz bhajana? Então, você deve praticar bhajana no seu palácio, e ao simultaneamente fazer todas estas atividades piedosas comuns. Não vou aceitar você aqui”.

Srila Narottama Thakura começou a chorar e disse: “O fazendeiro estava com tanta sede.”

Srila Lokanatha Gosami respondeu: “Talvez você não saiba que o Senhor Krsna e Seu nome são idênticos. Quando você está cantando harinama, deve pensar: “eu estou servindo Sri Radha e Sri Krsna. Hara é Srimati Radhika, Ela que controla a mente e o coração de Krsna. De Hara vem o evocativo Hare, significando Hara ou  Srimati Radhika. Rama é Radha-Ramana, Sri Krsna. Então Hare Krsna é Radha-Krsna, e enquanto cantamos devemos servi-Los, lembrando de Seus passatempos. Abandonando o serviço a Radha e Krsna você foi saciar a sede de uma pessoa comum,  e pensou que dar água era algo mais importante do que servi-Los. Retorne a sua  vida mundana e faça qualquer coisa lá. Eu não gosto deste comportamento”.

Samadhi de Srila Narottama Dasa Thakura, Vrindavana

Samadhi de Srila Narottama Dasa Thakura, Vrindavana

Embora Srila Narottama chorasse e implorasse, Srila Lokanatha dasa Gosvami não permitiu que ele ficasse em Vrindavana. Vocês compreendem seu ponto de vista? Isso é muito elevado, mas é real, é fato. “Nama cintamani krisna caitanya rasa vigraha/purna suddha nitya mukta abhinnatvad nama naminoh”: Krsna e o Seu nome são idênticos. Em outro sentido, Krsna manifestou todo o Seu poder em Seu nome, mais do que em Sua forma. Desde o início da criação do mundo até o fim, seu nome é capaz de entregar alguém para Goloka Vrndavana, mas ele mesmo não pode fazer isso. Ele não pode entregar os criminosos do seu nome, mas seu nome pode fazer algo. Em alguns casos, portanto, krisna-nama é superior ao próprio Krisna, porque Ele investiu todos os seus poderes nele. Quando cantamos o nome do Senhor Krisna, devemos estar completamente absortos, lembrando-nos dos passatempos de Krsna e Sri Caitanya Mahaprabhu, bem como da misericórdia de Nityananda Prabhu. Devemos tentar se absorver como Srila Rupa Gosvami, Srila Sanatana Gosvami e Srila Raghunatha dasa Gosvami. Eles estavam sempre cantando e servindo Radha e Krisna. Eles muitas vezes se sentavam juntos cantando, e eles eram indiferentes à passagem do dia para a noite, e da noite para o dia.

Srila Narottama dasa voltou ao seu reino no leste da Bengala e pregou amplamente as glórias de Radha e Krisna e seu Gurudeva. Ele estabeleceu vários templos, como Radha Madana Mohana, Radha-Govindaji, Radha-Gopinatha e Radha-Ramana, bem como os de Sri Caitanya Mahaprabhu e Sri Nityananda Prabhu. Ele começou a pregar por meio de seus kirtanas, e ele se tornou um kirtaniya muito conhecido (cantor). Ele pregou em Assam e Manipur e em todas as províncias orientais. Naquela época ninguém nessas regiões sabia nada de Krsna-bhakti e todos eram ignorantes sobre a verdadeira religião, mas hoje em dia centenas de milhares de Vaisnavas estão lá.

Ele convidou todos os Vaisnavas de Vraja Mandala, Mandala Navadvipa, Mandala Ksetra e Mandala Gaura, para ir a Kheturi, e inúmeros devotos vieram. Ele chamou a potência personificada de Nityananda Prabhu, Srimati Jahnava devi, para presidir essa reunião. Quando ele fez kirtana para Radha-Krshna, Sri Caitanya Mahaprabhu junto a todos os seus associados apareceram lá e começaram a fazer kirtana, misturando suas vozes com a dele. Isso era visível aos devotos presentes, e lágrimas vieram aos olhos de todos. Todos ficaram surpresos e se perguntavam: “O que estamos vendo? Será que estamos vendo um sonho ou realidade?” Então, quando o kirtana terminou, Sri Caitanya Mahaprabhu e Seus associados desapareceram.

Narottama dasa Thakura descobriu um novo tipo de kirtana, que é seguido por todos os Gaudiya Vaisnavas. Nós Gaudiya Vaisnavas, somos conhecidos como Narotama-Parivara, a família de Srila Narottama dasa Thakura. Ele era um bhakta muito puro, empoderado pela energia de Sri Caitanya Mahaprabhu.

Jay Srila Narottama Das ki! Jay!
Gaura Premanande! Haribol!!!

Samadhi de Srila Narottama Dasa Thakura, Vrindavana

Samadhi de Srila Narottama Dasa Thakura, Vrindavana